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Livros, livrarias e bibliotecas espíritas

Marco Milani
Departamento do livro – USE Regional SP

O que livrarias e bibliotecas espíritas têm em comum?

Livros, claro. Porém nem todo livro que está nas livrarias se encontra nas bibliotecas e vice-versa. E isso tem uma razão muito simples. Livrarias e bibliotecas são ambientes com características próprias e devem ser estruturadas e administradas considerando-se essas peculiaridades.

Allan Kardec, em 1869, ao propor um catálogo de obras relacionadas ao espiritismo para se montar uma biblioteca temática, recomendou cerca de duzentos livros de sua época, mas tomou o cuidado de classificá-las em três grupos: as obras fundamentais, as diversas e aquelas realizadas fora do espiritismo, incluindo algumas de contraditores. Kardec sinalizou, assim, a necessidade inicial de se conhecer as obras fundamentais para se compreender a cosmovisão espírita e, adicionalmente, propôs obras que pudessem contribuir para o estudo dos adeptos sobre como determinados assuntos de interesse eram tratados em obras correlatas e populares. Kardec também demonstrou ser relevante a reflexão sobre os argumentos que os contraditores se serviam para atacar a doutrina.

Sinteticamente, Kardec indicou que o papel da biblioteca espírita era o de suporte ao estudo metódico do espiritismo. Esse conceito permanece válido nos dias de hoje, destacando-se que modernamente os livros também podem ser disponibilizados em formato eletrônico, favorecendo a consulta e o acesso a muitas obras.

E a livraria não teria o mesmo papel de suporte ao estudo?

Certamente que ela também tem essa finalidade, agregando-se ao fato de que, aos olhos de qualquer potencial consumidor, uma livraria espírita oferece livros espíritas! Chega a ser redundante explorar esse ponto, mas lamentavelmente esbarramos em algo muito sério e que prejudicando a própria proposta de divulgação doutrinária em alguns centros espíritas, que é a malfadada suposição de que o leitor deve ler de tudo e cabe a ele a responsabilidade de separar o joio do trigo, ou seja, identificar o que é coerente ou não com a doutrina… Ora, mas se é um leitor iniciante ou sem muitos conhecimentos doutrinários, como ele conseguirá fazer isso? E não adiante perguntar para o vendedor se o livro é bom, interessante etc., pois seria péssimo para a imagem da livraria se o atendente dissesse se esse ou aquele livro não é adequado, apesar de estar ali sendo oferecido para o público. Para o consumidor, se o livro está sendo exposto numa livraria espírita é porque, logicamente, trata da temática espírita e passou por algum critério de escolha. Em outras palavras, os potenciais usuários, principalmente os iniciantes, confiam nos serviços e nos critérios de seleção da livraria do centro espírita.

O apelo comercial, por outro lado, vem fazendo com que muitos gestores de livrarias priorizem a quantidade de títulos vendidos e não a respectiva seleção pela qualidade oferecida. Ninguém duvida que a livraria possa ser uma importante fonte de receitas para a manutenção da instituição espírita. Mas será que justifica a ausência de critérios doutrinários para a disponibilização de alguma obra ao leitor? Supõe-se que alguém que compre um livro deseja gastar os seus recursos em algo útil e não para, ao final da leitura, lamentar a insensatez da obra. O problema é maior quando o leitor não consegue perceber a incoerência conceitual de que pode estar sendo vítima em suas leituras…

Uma comparação pertinente é a seguinte: que mãe, propositadamente, ofereceria alimento contaminado a seus filhos? Pois então, que dirigente espírita, consciente de suas responsabilidades, ofereceria livros com inconsistências doutrinárias ao público de sua livraria? Trata-se de uma relação de confiança e bom senso.

Bibliografia
Kardec, Allan. Catálogo Racional: Obras para se fundar uma biblioteca espírita. São Paulo: Madras, 2004.


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